sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Lenda da Mulher Chorona


Por que tu choras, ó Maria?
O que te fazes chorar?


Numa paragem longe desta de onde estou,
uma moça donzela por um rapaz s'apaixonou.
No coração dela, as flores da paixão nasceram,
destruindo razões que antes ali cresceram.

De tempos em tempos, ela via o seu amado passar,
mas... ele nunca a devida atenção foi lhe dar.
Mas em um dia de verão tórrido e de clima infernal,
os intentos dela se tornaram algo vivo, algo real.

Maria,
não te vás apaixonar!
Maria, Maria,
já vejo tu'alma sangrar!

Menina,
olha onde tu te meteste!
Menina, menina,
ele te queria só uma vez, entendeste?

E se findou as chances daquele encontro.
Nunca mais foi dela aquele tão másculo ombro,
nunca mais aquele cheiro lhe pertenceu
nem aquele corpo dele lhe tomou, lhe aqueceu.

Maria,
para onde queres voar?
Maria, Maria,
deste monte não vá se jogar!

Menina,
que eu vi crescer desde criança.
Menina, Menina,
que hoje não vê em nada esperança.

O vento o soprou para longe de teu sentimento.
O vento te esperou por longos e longos os dias. O tempo
te esqueceu em teu própria enterro,
onde tudo era morte, tudo era desterro.


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Floralis

Flora,
flores do mar,
cantos,
cânticos d'amar,
que vêm como ondas fatais,
destruindo o beijo dos casais.

Primavera,
primo suspiro do céu,
flor de laranjeira
de tez pura como véu,
que vêm pelos ares a bailar,
que me faz ver e flutuar.

"Amantes somos nós,
senhores e senhoras de
tão cálida e gélida voz,
de riquezas não contáveis
e de destino vil e atroz.

Se dizes a verdade,
se me amas como o sol
ama a lua, santa beldade,
da mais límpida pureza,
de tão tenra bondade,

provas o que tu falas,
beija a mais agre erva
da mais tórridas estradas
desta terra que vivo,
que abriga tantas moradas."

Solaris,
de céus em terra,
Floralis,
menina donzela,
que me diz coisas para eu dormir,
que canta coisas que não há por aqui:
sonhos de vidas passadas,
borboletas em francas revoadas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cantata d'Amor

"Todos estes sentimentos que me ferem agora,
tudo isso que gira na minha cabeça faz um sentido.
Eu sinto que entre mim e ti havia algo de errado,
mas agora sem ti, sem teu sorriso, tudo me é perdido.

Estas manchas que eu plantei no quintal,
estas máculas de um amor que não era deste mundo,
tudo eu te dei mas foi pouco pelo jeito...
Nada que não possa curar um mar sem fundo."

Jeronkjitüal - bal'Mastera'z-ata'Bibem


Alma cândida, ó alma!
ama-me!
Majestade de reino, ser de pureza!
ama-me!
Experimenta-me em fogo, em chamas!
toma-me!
Esquenta-me, aprofunda-te no amor...
toma-me...

Meu coração é teu,
como o pássaro é do céu,
como a luz é de Deus.
Tudo em mim te chama,
todo meu corpo,
minha existência te ama.

Alma cândida, virgem pueril,
vida de bem-querer,
senhora de meu puro,
de meu mais devasso prazer.
Se é vero que me amas,
se é de todo que me chamas,
toma-me em teu beijo,
toma todo este parco sujeito.

Experimenta-me, estou eu brasas!
Ama-me!
Veja que meu corpo vai morrer sem teu amor!
Ama-me!

Ah meu amor, é tão bom te ver,
é tão doce te sentir perto do mim!
Tuas mãos me fazem voar,
teu jeito, tua boca de cor carmim,
me reveste do mais tenro amor,
me diz a beleza de tão grande fulgor.
Toma-me, me prova como nunca,
posto que a vida não tem vez segunda!

Alma cândida, virgem pueril,
vida de bem-querer,
senhora de meu puro,
de meu mais devasso prazer.
Se é vero que me amas,
se é de todo que me chamas,
toma-me em teu beijo,
toma todo este parco sujeito.

Se me chamas de amor,
fica comigo até o final;
se me tens como amor,
ama-me mesmo que carnal...

"Love is love,
love is truth,
What is love?
Love is You..."




Ah
Eu quero te provar como se fosse permitido!
Eu te quero, te quero mais que o proibido!
Uma estrela de sexo e devassidão,
todo teu corpo, teu prazer em mãos.

Pernas abertas, ó!
Tudo que tu queres...
Tu que eu faço vira pó,
se não gemeres direito,
se não abrires os peitos
para minha doce tentação!

Mãos em cantos propiciosos!
Tentação, tentação de um corpo...
Tenra tez de face profana!
Ah que tu me provas em
vez de te provar eu...
Ontem à noite tu me tiveste,
hoje quem te tem sou...

Ah
Quão jocoso é!
Quão animado também!
Te provar tão sem fé,
te ter como se fôssemos alguém!

Vai,
toma-me,
tomo-te!
Toma!
Toma-me...
Como se eu fosse um brinquedo,
como se tudo fosse perfeito,
me agarra, me faz voar
com teu beijo, com teu jeito d'amar!



Agora eu já posso me despedir?
Ente nós nada mais existe...
Eu ontem te tinha comigo,
podia te dizer o que sinto por ti...
Mas agora...
Tu me deixaste sem nada,
tu foste embora e me levou contigo...
Devolva-me
que eu sinto falta de mim!

Agora o mundo nos separa,
e aquele último beijo...
sim...aquele último beijo que me prometeste...
Ele foi embora contigo.
Por que tu me deixaste?
Tu me és tão importante,
tão doce te ser querido,
ser teu amante...
Devolva-me...
Que eu me perdi sem ver o fim...

Eu sempre te vejo passar.
Sempre te noto,
mesmo que tu nunca vás me notar.
Eu ainda te amo,
mesmo que nunca tu me foste amar...

sábado, 24 de abril de 2010

Analice e o vento da Morte





Analice estava de fato diferente.
Borboletas nasciam dela, pássaros nasciam dela, ventos nasciam dela. Ela tornara-se parte daquelas nuvens. No fundo, ela se sentia como uma nuvem, que pairava dileta e fragueira pelo céu. Ela estava se desprendendo daquele chão, ela se sentia voar. Ela estava voando, afinal. Seus olhos extasiados com tanto sentimento, lágrimas parcas caem de seus doces olhos, num momento sublime, tais lágrimas começam a despencar lá de cima: está chovendo! Eu sou a chuva - pensa Analice.
O vento de seu corpo segue em direção ao céu da cidade, que não estava mais sobre a escuridão da noite. O sol acordou junto com a transformação de Ana, que segue rumo a sua casa. Mais lágrimas pendiam do céu, mais água chovia. Nenhuma idéia povoava a mente da menina. Dizia-se que ela nem mais pensava, agia conforme seus instintos, conforme fazem os animais e os fenômenos da natureza.
Ana vem descendo à toda velocidade. Nunca ventos tão céleres varreram os céus daquela cidade. folhas voavam pelos ares, árvores balançavam ao sabor do vento, ou melhor, de Analice.
A menina avista sua casa. Será que mamãe está bem?
Analice apressava-se. Ia, cada vez, mais se aproximando de seu casa. Enfim, ela está lá. Ana não consegue bater na porta, nem tocar a campainha. O que será que ocorre comigo? Ela se move em direção à janela de seu quarto. O que há lá dentro? Analice toma um susto: seu corpo está deitado sobre a cama, com todos seus parentes chorando. Olha para a árvore que ficava de frente ao seu antigo quarto. Analice se assusta ao ver que um corpo pendia do alto de um dos grandes galhos da velha árvore, um corpo que ela conhecia bem: era Dona Joana, sua mãe.
Um desespero invade a mente da menina, mas ela não mais consegue chorar! O que ocorre comigo, Senhor? Ela não consegue mais chorar! Ela quer, mas não consegue... Ana fica mais um tempo ali, percebe que ninguém a nota, que ninguém sente que ela está ali. Um vento forte vindo de longe varre Ana daquele lugar, sua existência se esvaece pelos ares da cidade, que nem percebeu que aquela menina estava apenas sonhando, enquanto via o bater das borboletas pela janela.


E o sopro que a levou a viajar por um mundo invertido, este vento a fez suspirar, como se acordasse do mais terrificante sonho de sua vida. Seus olhos perdidos em um nada infinito. Ela se lembra de seu remédio. Cadê minha sertralina?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um corpo estendido no chão sujo e fétido

" Um beijo na minha boca,
uma dose de sexo em meu conceito,
tua mão...teu estranho cheiro
me deixa tonta, me deixa louca"

As loucuras da Senhora Freira - L.K.Briseude





Ela tem na mente as lembranças da noite passada, quando seu corpo era tomado por aquele homem forte, que tinha largos braços e costas firmes. Ela se lembra de sua barba roçando na boca dela, como se espinhos perfurassem seu delicado rosto. Tudo isso ela sentia.
Seus olhos se perdiam nas lembranças daquela noite, como se nada tivesse ocorrido antes. Aquele era o homem de sua vida, era aquele cheiro que ela queria carregar para sempre. Agora ela se arrepende de ter feito aquilo, de ter falado sobre o que ocorreu. Seu amado foi capturado, foi preso, levado para um cadeia comum. Estupraram-no! Tomaram o corpo que ela queria beber novamente; contudo, já era tarde: ele estava morto.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Em nome da rosa

"Todos os senhores do universo podem voar,
tudo em mim pode sumir ou morrer,
mas minha fé em Deus é secular,
como o suspiro que Jesus um dia foi ter..."




Em nome da Rosa você pode matar.
Em nome da Rosa você pode estuprar.
Deus lhe permite viver como quiser,
exigindo tão-somente um pouco de sua fé.

Em nome do Sangue eu posso me fazer destruição.
Em nome do Sangue hoje eu sou um bom cristão.
Jesus pode me amar nesta noite como sempre,
mas eu ainda não morreria santo ou inocente.

Eu quero ver o mundo de Adão,
todas as estrelas do céu jorrando,
Jesus e seu reino de devoção
numa valsa de leveza ao som dum piano.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pequeno Cântico


"Amo

Não sei se vivo ou se erro

Não sei se dói ou o quê

Não sei se respiro ou não sei

Não sei se calo ou proclamo

Não sei...

Só sei que amo."

Gustavo Athayde - o poeta escorpião






Teus suspiros já me completam,

e tuas manchas na cama...

Teus sorrisos escondidos,

e tua face de criatura profana...


Desde aquele dia que eu te enxerguei,

desde o tempo que meu corpo te entendeu,

eu sinto que em tua sombra me encontrei.


Teu nome não me é familiar.

Como tudo aquilo que há de

santo num rompante de sexo, de amar.


Teus suspiros na cama,

teu jeito de dizer teus prazeres mais surreais,

tudo isso me chama

a te desejar como fazem os mais devassos animais.




domingo, 18 de abril de 2010

A borboleta das borboletas...Analice no Chão do Céu

Nenhum pensamento. No momento em que a borboleta pousou no rosto de Analice, os pensamentos da menina cessaram, não havia mais nada na sua cabeça. De repente, como se algo viesse de dentro para fora, num sentido perdido de explicação lógica, uma voz doce e solene ecoava por entre as paredes da mente de Analice. Uma voz. Que voz? Não sei de quem é, mas, vendo do ponto que estou, parece que era a voz daquela borboleta. Analice não achou estranho no momento; ela não tinha como fazer isso. Nada havia na sua mente; tão-somente aquela voz estranha, estrangeira das memórias da menina. As palavras eram ditas e não tinham um sentido inteligível, as palavras voavam pelo vazio do pensamento de Analice. O que será isso, meu Deus?! Depois de certo tempinho, as palavras começaram a se encaixar, a fazerem uma frase, depois um período, por fim, tinha-se uma mensagem, e era, de acordo com o que me foi contado, essa:

"Ana, Ana... Tu queres voltar para casa? Imagino que queiras. Só há um jeito de voltares: terás de me matar, a fim de que se tornes uma pessoa deste mundo... Este é o jeito de ser um de nós. Da destruição vem a criação, este é o ciclo... Se lá no Céu da Cidade, a morte vem depois da vida, aqui é a vida que segue a morte...Mata-me e renascerás como uma de nós..."

Analice acordou como se estivesse num profundo transe. A borboleta que repousava sobre seu rosto, planou pelo ar e caiu na sua mão. Analice a vislumbrou por um pequeno momento, depois, lembrando-se do que havia em sua mente há pouco tempo atrás, engoliu o inseto.



E agora? Nada aconteceu. Passou um tempinho, nada aconteceu! Ana estava com nojo do que fizera há pouco; no entanto, em verdade, ela não sentira nenhum gosto estranho, até era bom, dizia-se que aquela borboleta tinha gosto de maçã, de maçã bem madurinha. Opa! Algo acontece! De repente um vento forte! O que é isso? Um vento forte demais! Do Céu da Cidade veio um forte vento, como se uma tromba de vento viesse de cima para baixo! O vestido e os cabelos da menina esvoaçavam pelos ares. Que vento forte! Uma luz envolve Analice, uma luz muito intensa! Borboletas? Muitas borboletas estavam ali! Ela estava sentindo algo de diferente, algo de novo. Analice havia mudado mais uma vez! O que ela era agora? Não sei bem. Mas ela estava linda. Seus cabelos vermelhos ficaram estranhamente mais escuros, meio arroxeados, coisa do tipo.



O que ocorre com ela, Senhor? Analice depara-se com muitas borboletas ao seu redor, como se a achassem ser igual. Ao final, Ana se sentia nova, como se estivesse nascendo, tivesse acabado de nascer, tudo era novo de novo, e, na sua mente, uma paz e uma tranqüilidade reinavam solenes.

Disse-se que estava perto o fim da saga de Analice por tão estranha terra. Veremos se isso é verdade.

Do estranho caso da menina que não tinha sonhos


Maria era filha de Joana, filha única, sem pai, ou melhor com pai não interessado em criá-la. Desde cedo teve de aprender a se virar sozinha, afinal de contas tinha de ficar a maior parte do tempo sozinha. Se dividia entre os deveres da escola e os deveres do lar, já que sua querida mãe tinha de trabalhar para manter a casa e ainda ter dinheiro para ajudar Dona Leopolda. Joana não teve família, foi menina de rua e teve de fazer de um tudo para conseguir ser alguma coisa que preste na vida. Dona Leopolda foi a mão que ajudou Joana. Não se sabe ao certo onde elas se conheceram, mas se sabe, eu sei porque vivi essa história, que elas se tinham como parentes, algo como mãe e filha, mas sem laços de sangue ou de um passado em comum, a única coisa que tinham de parecido era a força de vida, ambas eram muito perseverantes e tinham uma força de vontade de deixar qualquer pessoa com inveja. Maria não sonhava. Todas as noites ela esperava um sonho, mas nunca teve um um. Nunca sonhou com nada, nem pelada no meio da rua, nem caindo de canto nenhum. Nunca sonhara. Maria nunca notou a falta disso na sua vida, mas sabia que existia isso de sonhar. Uma vez ouviu alguém falar disso, de um sonho que teve e tal, mas ela mesmo nunca teve um. Joana dizia que Maria tinha sonhos, mas que nem sempre a gente consegue se lembrar do que sonhou; contudo, a menina sabia que isso não ocorria com ela,sabia que nunca sonhou com nada, nem sabia o que era isso. O local onde Maria e Joana moravam era bem pobre, não havia muita segurança, não; aliás, não havia segurança nenhuma. Era meio que uma favela, sabe. Joana saia de casa às 4 da manhã e voltava às 8 da noite; Maria saia às 5 e voltava às 12 da escola, o resto da tarde era de afazeres do lar. Limpar, cozinhar, varrer, arrumar, tudo isso era com a pequena Mariazinha. Dava era pena de ver. Uma menina tão nova, tão doce, tão coitada de tudo e de todos. Uma pena mesmo. Certa vez, o açúcar acabou, e a menina teve de ir até a venda do Seu João Moço para comprar mais. No caminho, ela ouviu uma sirene. Será a polícia? Instintivamente ela se encostou na calçada, tentando fugir do carro que vinha com a sirene. Quando notou, estava no chão, ensagüentada. Recebera um tiro no pescoço, ia morrer decerto. A menina não ficou desesperada, apenas caiu no chão, viu o mundo ficando cinza, tudo estava cinza, sentiu um sono muito forte, como se tivesse passado 40 dias sem dormir. Começou a ver pássaros a sua volta, voando pelos ares, tudo girando, pássaros voando e voando. O som do ruflar das asas chamava atenção. Sentia que aquilo deveria ser um sonho, parecia ao menos com a descrição de um. Finalmente, Maria soube o que é sonhar.

D'estória dos Ventos


-Deus criou duas esferas do mundo:
a terrena, onde nós, humanos seres e
demais seres viventes e não viventes,
moraríamos; e a celeste, onde o Reino
das Nuvens e da Lua teriam repouso.
O Divino Rei então separou
estas duas esferas etéreas
pelo reino do Vento,
a qual deu para um dos
mais calmos e caridosos anjos do Céu:
Vensaniel, Filho de Mefesta.
Deus disse ao anjo dos ventos:
"Escuta, pois, o que digo, anjo:
separa teu reino em províncias
e as entrega a espíritos terrenos,
deixa teus ventos calmos e constantes,
a fim de separar os dois Reinos Divinos,
o Céu, com a Lua como luminar,
e os terrenos marinhos.
Escuta, outrossim: Nunca
saia de seu Palácio,
que jaz no topo da maior montanha,
do mais alto país,
do mais alto continente
que criei. Se saíres de teu remanso,
os demônios, filhos de Satã,
podem dominar a conformação dos sopros
do mundo, gerando toda sorte de
males e de dor!
Escuta bem e faze o que digo Eu!"
E assim disse o Rei Divino,
e assim se fez por muitos séculos.

-Satã e os doze demônios da Coroa de Lucífer
tramaram o domínio dos ventos,
e deste modo principiaram a fazer.
O Rei Infernal sabia que Vensaniel
era um ser de todo vaidoso,
e soberbo em seu jeito de ser e de viver.
Foi aí que o Inimigo fomentou
sua trama maléfica.
Mandou que Ashtahor de Raveni
tentasse o anjo dos ventos
com o pecado da desobediência.

-Ashtahor foi então
ao topo do mundo
e clamou por Vensaniel na entrada do
Palácio dos Ventos.
"Vensaniel, filho de Mefesta,
atende, pois, ao chamamento de teu irmão."
O anjo aparece na Porta e diz:
"O que queres tu aqui,
Ashtahor, antigo Meraniel, filho de
Mefesta, irmão meu?!"
"Quero tua piedade, irmão."
Ashtahor falou isso com lágrimas vertendo
sobre sua face lânguido e pura.
Poucos sabiam, mas anjos não podem chorar,
apenas os demônios e os humanos possuem
tal demonstração.
Vensaniel se condoeu com
o pranto de seu irmão e, num rompante
de sensibilidade e caridade,
foi ao encontro daquela alma
que ali chorava. O anjo foi tolo.
Ao abraçar Ashtahor,
Vensaniel é ferido pelas costas
pela lança de Satanás,
que o mata ali mesmo.
O Reino dos Ventos fora corrompido,
desde então os sopros
do mundo são dominados
pelo Mal, o que gerou
toda sorte de males, de
furacões e de tempestades
no mundo do Céu e da Terra.

Delirium psalmus


Ao te olhar,
o mundo pára,
meu mundo cessa.
O dia fica perplexo
diante de tanto amor
que emana de mim.

Me sinto tão confuso,
como se tudo fosse escuro.
Quem dera eu te ter agora comigo,
me sinto tão...tão feliz contigo.

Ao fundo de tudo,
eu sei que amar não vale
a pena, que amar é perder,
mas tudo me leva a ti,
tudo em ti me faz voar.

Estes incidentes de fé,
estas vidas de um beijo qualquer,
tudo em mim e em ti, meu amor,
lembra um sonho que não acabou.

Contigo é onde quero estar...
Em teus braços, teu cheiro me faz sonhar...
Apenas tu me ouves em profundidade,
apenas teus olhos enxergam minha verdade,
que às vezes eu escondo de mim mesmo,
mas tu, com seu sorriso perfeito,
me fazes logo esvaecer...

Tua boca me diz coisas belas sempre...
Como quem não quer nada, de inocente,
me aproximo e te ouço falar...
Este estado me faz delirar,
teus olhos, teu cheiro, teu hálito...
Este amor me é tão mágico,
que as vezes me sinto desmaiar...

Silêncio


Seu grito abafado varava a noite,
seus pulsos cortados sentiam o fim.
Os olhos dela já não cantavam mais,
já nem seu brilho eu conseguia vislumbrar.

O tempo se fez silencioso naquele momento.
Não havia nada a se fazer, apenas enterrar...
Enterrar os mortos numa cova profunda,
numa cova que não se abrisse com a chuva.

Meu nome é ninguém.
Meu nome é ninguém.
Sou passageiro de um certo alguém,
de um certo amigo,
de um toque de pouco desdém.

O único sonho dele era que tudo isso acabasse,
que o amanhecer fosse claro como o normal,
que a infinidade de sua vida se acabasse cedo,
tendo a morte um sentido além de ser um ponto final.

Ó como eu queria que você voltasse, meu amor!
Sinto sua falta, sua ausência se faz sempre presente.
Passado e futuro se misturando como antes,
como se eu e você fôssemos um único verbo.

Meu nome é ninguém.
Meu nome é ninguém.
Sou passageiro de um certo alguém,
de um certo amigo,
de um toque de pouco desdém.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Por entre nós...

"E tudo o que eu cantar,
e todo meu canto de benfazejo,
resplandecerá a Glória de Jeofá,
Santo Rei dos puros desejos..."

Haggbibem-kehel - Cântico do Livro dos Santos




Por entre nós uma criança nasceu.
Sublime esperança, Flora nascente,
vindouro luminar. Futuro de um presente
que iluminará os rebentos de Deus.

Uma criança por entre nós nasceu...
Linda e pobre como reles mendigo...
Sublime benfazejo do reino judeu...
Forte e terrível, santo e fiel abrigo...

Deus, que presente estupendo!
Jesus, filho do céu e do oceano,
imperador da terra e senhor do vento,
desceu até o nosso pobre remanso!

Um infante por entre nós rebentou...
Pobre e mendiga como um qualquer...
Reino do Céu e morado do Senhor,
que escolheu Maria por sua grande fé!

Por entre nós um santo espírito,
uma luz sem igual, rebento de Sião
e luz do outrora povo largado e perdido,
com Jesus todos têm na norte a salvação!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Senhorita

"Para Mercedita, que tão jovem morreu,
que tão bela me era,
que tão cedo me deixou sem seu querer,
sem seu amor.
Para sempre eu serei de ti, ó Merce bella!"

Cântico de El-Rey Dom Juan de Los Periquitos Locos - 1548 d.c.



Vejo passar tão estranha moça,
tão pomposa dama...
Quem será ela?
Ela quem será?
Tão linda, senhorita!

De cabelos negros como o asfalto,
de voz forte como um trovão,
de risada fácil - ou eu que sou bobão?
Eu por ti renuncio o mais belo paraíso!
Tão me apraz ficar te olhando,
vislumbrando teu belo jeito...

Vejo caminhar tão belo sonho,
tão formosa senhora...
Tez límpida em pureza,
beleza plena de uma donzela.
Tão linda, senhorita!

Sonata do Desespero


"All these accidents that happen
Follow the dot
Coincidence makes sense
Only with you
You don't have to speak - i feel"

Jòga - Björk



Você não precisa falar,
você nem necessita me dizer nada;
eu já sinto o que seus olhos querem
me esconder, já vejo sua voz mentir.

Quando eu caí naquela noite,
você me empurrou cada vez mais
para a solidão, para o abismo
que sempre aumentava entre nós.

Belas paisagens de uma mentira surreal,
um desenho abstrato que eu mesmo criei,
uma ilusão pintada com tom de arte final,
manchas que com minhas lágrimas borrei.

Você não precisa dizer nada para mim,
apenas seu comportamento já me
revela que meu mundo já não
é mais seu, que eu...morri para você.

Eu só queria fugir deste estado de...
Todos estes acidentes são minha culpa!
Apenas os nervos de minha voz podem
falar, podem dizer quantas vezes já morri!

Belas paisagens de uma mentira surreal,
um desenho abstrato que eu mesmo criei,
uma ilusão pintada com tom de arte final,
manchas que com minhas lágrimas borrei.

Todas essas imagens que giram na minha emoção,
todos esses vazios internos já não são mais seus...
O meu mundo já não é mais seu...eu, apenas
eu que ainda teimo em não perceber o que todos sabem...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Analice e o teto d'Estrelas

Inspirado por Damien Ribeiro Maia, companheiro de devaneios e imaginação.


Aqueles morangos...eles me fizeram dormir certeza! Assim pensou Analice quando deu o primeiro lampejo de consciência depois de um sono profundo e catatônico. Antes de abrir seus olhos, reparou que não sentia mais a claridade do dia perpassar a pele de suas pálpebras. Será que já é noite? Já anoiteceu, e eu ainda continuo aqui, neste canto que nem sei onde fica, nem como vim parar aqui! Sim. Era noite. Quando a menina abriu seus olhos percebeu algo que, não fosse a estranheza do que ocorrera até ali, seria uma das cenas mais lindas de toda sua vida: a cidade. Quem mora lá não percebe como ela é bonita vista de cima e à noite, à escuridão da noite. Analice ficou maravilhada com aquilo, teve sensação que ia cair lá do céu e se estabanar no chão da urbe, mas, de um modo que eu ainda não sei explicar e talvez nunca saiba, ela não caia. Em verdade, nem parecia que ela estava vendo aquilo tudo de quem estar por cima; sim, como se estivesse no canto que sempre esteve e que apenas os locais mudaram de posição. Analice não entendia muito bem aquilo e nem fazia questão de entender, já que pensava que era tudo isso um sonho, que logo voltaria para sua vidinha de sempre e que seu cabelo voltaria a ser castanho mais uma vez. Mas espera! O cabelo dela nem mais vermelho estava! Acho que a escuridão da noite deu um tom mais enegrecido para as franjas rubras da menina. Analice se levanta do chão de nuvens e olha fixamente para o céu estrelado de carros e de luzes de apartamentos e casas, mais uma vez ela pensa em sua mãe; no entanto, tal pensamento é logo retirado de sua cabeça por um acontecimento de todo o mais estranho da noite. Uma das muitas luzes que faziam parte da constelação de lampejos do teto de seu sonho se desprende e vem caindo vagarosamente em sua direção, vem cambaleando como um bêbado, vai tomando forma cada vez que se aproxima mais da menina Ana e vai...vai...ficando parecido com uma borboleta, uma borboleta azulada e cintilante. Analice toma um susto quando a borboleta azul-cintilante pousa em seu rosto. Era aquilo uma borboleta mesmo? Analice achou que sim. Confesso que eu também achei que fosse, mas me disseram depois que não era.

E no solo do céu um clarão bem ao longe se destacava por entre as nuvens que recobriam o tapete celeste, algo que muito depois Analice descobriu que era a Lua, que reparava curiosa para que ocorria com nossa doce protagonista.

Crônicas de um suicida


Olhares errados de um mundo em transição

Hoje tudo me parece mais sonolento do que de costume. Não sei bem ao certo do que se trata, mas sei que me dá sono. Isso de tomar remédio é assim. Tenho vontade de dormir o tempo todo, mas também estou a maior parte do tempo contente. Isso deve ser bom, meu médico me disse que estou reagindo muito bem ao medicamento e que vou passar de 6 a 9 meses tomando. Ah e vou fazer psicoterapia também. Todo mundo me pergunta o porquê de eu ter depressão. E eu...na verdade, eu talvez saiba, aliás eu sei...Mas sei lá, não quero externar isso agora, talvez nunca externe. É a vida. Não sei ao certo como isso começou, mas sei que começou faz tempo. A morte sempre foi uma constante na minha vida, na minha família. Desde sempre me deparo com este fato. Não sei o que leva a sina da autodestruição; no entanto, nas muitas crises que eu tive, essa era a única saída para o que eu estava sentindo naquele momento, mesmo que depois aquilo tudo parecesse uma tremenda tolice.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Rimas fracas


Eu posso ver seu rosto indo embora,
posso ver a terra ficando triste,
vejo meu sonho morrendo...
Aqui de onde estou, eu sinto seu
mundo se distanciando...
sinto que nada mais nos unirá.
Mas a sua voz ainda fala na minha mente!

Você é o motivo,
é minha razão de esperar um novo amanhã,
a luz que nunca se apagará dentro de mim...
Você é meu abrigo
contra o meu eu de escuridão, contra o depois
que nunca é igual a felicidade do presente.

Palavras não tenho mais para te pedir,
nem meu olhos chorar mais conseguem.
Eu queria apenas que você visse a luz
que eu coloquei no escuro do meu coração,
a face deste sofrimento que não tem...
que não acaba no final do que acabou
nem no começo de um novo amor.

Você é o motivo,
é a esperança de um novo amanhã.
O destino de meu presente...
Você é meu abrigo,
a luz que nunca se apagou para mim,
a vida que nunca quis perder...

Meu sonho se partiu quando você foi embora.
Eu te amava tanto, como se...
Como nunca antes eu amarei alguém mais...
Onde está você agora?
Em um lugar que não posso alcançar...
O destino me apagou de seu caminho,
mas o passado me reaviva sempre a lembrança...

domingo, 11 de abril de 2010

D'estória do amor entre o Mar e a Lua

"Bendigamos Deus nas alturas, ó filhos de Eva!
Bendigamos os feitos do Senhor, Pai dos filhos do Mundo!
Deus criou as esferas da lua e do mar,
separando-os com o Reino do Vento! Oremos, pois, as
graças que o Pai nos ofertou!
Oremos, pois, o mundo Deus criou!"

Texto retirado do HaggBibem - O livro dos Santos



-Desde muito tempo,
desde os tempos da criação do mundo,
o Mar se encantou pela Lua,
e ela por ele.
Mas eles nunca poderiam se encontrar,
nunca poderiam se beijar...
Deus separou os dois; em cada extremo da
Casa Terrena: um no teto, como lustre das noites,
e o outro ao solo, como tapete das estrelas.
Nunca eles se encontrariam,
nunca iam se beijar.
A Lua vivia triste desde então,
desde sempre,
desde o dia da Criação.
Todas as criaturas sabiam deste amor
eterno, deste suspiro de dor que perpassava
o coração destes dois grandes seres:
a Lua e o Mar.

-Numa noite de escuridão sem igual,
a Lua estava olhando para a vastidão
do que fora criado,
do que nasceu do primo sopro.
Então uma voz,
uma doce voz a fez atentar.
Era uma serpente
que se enrolava no topo da mais alta
árvore de toda a terra para ter a chance
de conversar com a linda Lua.
E assim disse:
"Lua, Lua de tenra tez,
eis aqui o segredo que tu não sabes talvez:
Se, ao desceres a tua alcova matutina, estenderes
as mãos para o Mar, e o tocares, tu e ele
poderão, enfim, se beijar para todo o sempre,
e assim o será por entre os séculos
dos séculos, amém"
-A lua acreditou tolamente
no que a serpente maléfica disse.
Esperou os raios do sol
rasgarem o manto da Noite,
e começarem a revelar o novo Dia
que estava a nascer.
A Lua foi caminhando
para baixo, cada vez mais perto do seu
amado.
Ao se olharem,
os dois sentiram o poder que emanava
de tão grande e proibido amor,
de tão forte sentimento
que a eternidade do passado forjou
em dias e mais dias de esperança.
Ao fim, a Lua tocou a face do Mar,
e o céu se corrompeu em destruição,
o Sol enegreceu-se como que sujo
pelo mais terrível ódio.
A serpente revelou sua verdadeira face:
Beshtahor de Meragi, o filho do Mal.
Seu intento era destruir a Criação
desde os idos de Adão e Eva,
filhos de Javé, Deus Pai Trino.
E assim, finalmente, conseguiu.
A Lua e o Mar se olharam mais uma vez.
Os dois sabiam que aquele era o fim
de tudo o que fora feito até então.
Aquele foi o último beijo da Terra...

Rio sem foz


Rompem o frio do norte
as fúrias da solidão.
O signo de Deus e
as brumas da morte
como nunca antes
se teve a chance de vislumbrar,
num fogo de chamas, um altar.

Virgens cantam e dançam
ao redor do fogo, do sinal.
Eu não posso mais dizer o que
eu disse antes, antes deste Mal
tomar Jerusalém como abrigo,
antes d'eu matar minha fé com ilusões,
quando ainda eram nosso os torrões.

Nostradamus e outros tantos
previram um reino feliz e pacífico,
mas eu ainda não achei meu sexo,
nem onde mora o Pai do Paraíso.
Meus sentidos se perderam no começo,
meus sinais se perderam de minha voz,
meus rios se perderam numa mesma foz.



Água de Mana


...
Água de Mana,
Sitar de Mana
toca em acordes de sonhos,
toca em acordes de beleza
em cantos tristonhos
de uma antiga pureza.
...
Pranto de Mana,
Manto de Mana
vestes caídas de um rei profano,
mares bravios, mares solitários
de um mundo tão humano,
de um suspiro de calvários.
...

sábado, 10 de abril de 2010

D'os morangos D'Analice


Analice pegou a mão cheia de morangos e os olhou como se fossem jóias de grande preciosidade, como se fossem além de morangos. O que pensava ela? Naquele momento mais nenhum pensamento pairava pela mente da menina, nada além de ter a chance de comer morangos tão lindos e apetitosos. Coma-me, coma-me...A primeira mordida, o primeiro pedaço que se desprende da matéria dos morangos e passa a fazer parte da matéria de Analice, como num passo de mágica, da mais aterradora e misteriosa de todas as jamais feitas na terra dos homens.
Um sono muito forte. Que sono é esse, Meu Deus? Será que mamãe está pensando em mim agora? Onde estarei eu? Nada se via ali de conhecido, aquelas terras nunca foram tocadas antes por ninguém, apenas por Analice, que agora se via envolvida por um terrível sono, um sono muito grande, um sono dopante, num estado de consciência débil, como se...como se...não sei nem como dizer isso...Este sono? Será que foi pelos morangos? O que tinha nestes morangos? De repente...de repente tudo foi ficando mais sombrio...mais negro, como se estivesse ficando de noite...Ai que sono! Vou me deitar aqui, perto da mesa mesmo...Será que alguém vai vir aqui? Isto parece tão desabitado, tão largado...E ao alto a cidade continuava a mesma. Agora era detardezinha lá, os carros estavam voltando para casa a esta hora, tudo do mesmo jeito de sempre, tão monótono e repetitivo....

D'o conto d'Analice e a Terra do Céu


Onde eu estou? Mamãe? - se pergunta a menina Analice.
Onde ela estará? Bem, de fato eu não sou a pessoa que saiba mais sobre o canto que ela está; no entanto, vou tentar descrever. Ela estava deitado numa grande nuvem, rodeada de muitos pássaros multicoloridos, seu cabelo vermelho se destacava na paisagem, como também sua roupa azulado...Bem ali perto de onde Analice estava deitada, havia uma pequena mesa cor de madeira, na qual uma taça de suculentos morangos dormia também. Os olhos da pequena ruiva se abriam vagarosamente, meio que tentando se proteger da luminosidade, que era muito forte. Quando Analice abre seus olhos tem um grande susto. Ela percebe que está olhando para sua cidade, vendo-a de cima, como se estivesse nas nuvens, mas aquilo era uma coisa meio louca, porque em sua volta havia nuvens, elas eram o chão e a cidade o céu; ou é Analice que morreu? Eu estava dormindo, tive um sonho e...E agora estou aqui...Agora ela nem sabe mais onde está. Ela toma coragem, levanta-se...Ela teve uma sensação que nunca tivera antes...Era como se realmente ela estivesse no Céu, como se a terra fosse o teto do mundo e o céu fosse o chão, numa troca de papéis que ela nunca pensou que existisse. Isso deve ser um sonho, certeza! Isso não tem a menor lógica!
A moça percebe a bela taça de morangos na mesa de cor marrom. Não havia como não perceber aquilo. Os pássaros voam por todo o canto, deixando suas penas caírem pelos ares, como num balé de plumas...Meu Deus, onde estou? Ela não tinha a menor noção do que estava acontecendo. Confesso que nem eu também. Para mim tudo isso é novidade. Analice se dirige à mesa. Era como se os morangos a chamassem, como se eles quisessem ser comidos por ela, por aquela menina-moça de cabelos estranhamente vermelhos...Os morangos queriam ser comidos...Eu posso até ouvir eles me chamando agora: venha me comer, venha...venha...sua fome nos libertará...E Analice foi fazer o que eles pediam...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Estátuas de um Deus fiel...

"Como a morte pode me redimir?
como um anjo pode me amar?
como Deus pode me construir?
Como eu tive a dor de te amar?"



Ouvi bem criaturas,
baseado nas Escrituras,
não resiste o século!
Não resiste o século!

Nossos Santos cairão,
nossas estátuas de virgens cairão,
nossos Santos vão morrer,
nossa vida não vai mais haver...

E Deus com sua ira eterna
vai findar o reino em primavera,
sua fúria tudo acabará!
Sua fúria tudo acabará!

Nossa vida, nossa história,
nossa morte, nossa glória
cairão no tempo do juízo,
cairão ante a Porta do Paraíso...

O Senhor está convosco,
o Senhor está convosco
e com os mortos de seu panteão,
com os filhos bastardos de Sião.

Nosso estado de emergência,
nossa vida em decadência,
nossas religiões de altar,
tudo isso vai acabar...
tudo isso vai acabar...

No meu espelho de morte
eu vejo todo o tipo de sorte
se acabar...eu vejo o mundo morrer...
eu vejo o tempo por meus dedos escorrer...

Nossos Santos de Estátuas mortas,
nossas podres religiões e suas portas
vão cair por terra no dia final,
tudo isso vai acabar...
tudo isso vai acabar...

Padres, Santos, Freiras pagãs,
dias e óstias das terras cristãs...
Nosso passado em presente mortal...
Nossas vidas como um sonho infernal...

E eu vejo você ir embora,
como uma ave de sorte, uma demora
para ter você de volta em mim...
eu morro todo dia e nunca chega meu fim...

Conto d'A menina de cabelo vermelho


Era um tempo de primavera, uma primavera bem diferente decerto. Naquele ano Analice completou 15 anos de idade, teve direito a festa e tudo, com 15 belos rapazes para dançar com ela e com suas falsas amigas. Depois desta festa, Analice se trancou em si, nunca mais teve amigos como outrora, nunca mais teve vontade de sair de casa. Passava horas e horas trancada no seu quarto, horas e horas de choro e de desespero, pensava em morrer, em acabar com tudo o que até ali havia construído. Ela não construiu nada de útil. Analice teve um sonho certa vez. Neste devaneio uma ave vermelha vinha na janela de seu quarto e a dizia:
-Analice...pirrulim...pirrulim...o mundo está passando e você não passa do mundo...pirrulim...pirrulim...você não passa do mundo...pirru...pirru...o mundo não passa de você também...
Aquele pássaro foi embora de seus sonhos.
Analice acordou diferente naquele dia, tanto mental como fisicamente. Seu cabelo castanho estava vermelho, e sua pele moreninha ficou branca...
Todos se assustaram com aquilo.O que ocorreu com Analice, mamãe? Não sei, meu filho.
Levaram a moça para médicos e para coisas parecidas, mas ninguém conseguia explicar aquilo. O que era aquilo. A menina estava tão feliz, tão contente com tudo e com todos, como se o mundo fosse sempre belo e alegre. O que ocorreu, Doutor Evaldo? Não sei, Dona Joanna; eu não sei!
Outra noite dessas, o mesmo pássaro veio visitar os sonhos de Analice. Neste sonho de agora o pássaro dizia:
-Ana...Ana...você pode voar agora, meu bem...pirrulim...pirru...voe, Analice...nós podemos voar agora...
De manhã, Dona Joanna entrou no quarto de sua filha e teve um terrível susto: a cama de Analice estava vazia, tão-somente penas vermelhas pairavam no ar, numa imagem onírica e trágica...

Salmo Nº1 - O canto de Letsaniel


Nos permita, Deus do que existe,
como nas Escrituras está escrito,
ter em vosso manto um abrigo
contra o Mal que ainda persiste.

Nos permita, Iavé de poder eterno,
que o tempo não se finde, não se acabe
antes de nós cantarmos o "Salva Me",
mesmo que seja canto parco e singelo.

Nosso sonho em vós tem realidade,
nosso canto de paz e amor a vós oferecemos,
por entre os mortos que carregar temos,
por vosso filho, clamamos piedade.

Nosso puro jeito de sermos criaturas,
nossa voz ecoa por entre os portões da morte,
como se não houvesse algo mais belo e forte
que o som que advém do canto das Escrituras.

Deus de Jacó, de Moisés e de Abraão,
nossa religião em vós pede um abrigo final
para aqueles que pecaram sem ter um sinal
de que assim feríamos o divino coração.

Nosso estado de morte vindoura,
nossa angústia ante as estrelas celestes,
ante o filho de Satanás que vós dissestes
que seria a última praga duradoura.

Tão pequenos somos ante vosso poder,
tão singelos somos ante tão grande Reino,
que é de todo puro e de beleza perfeito,
local de divindade em ares do Santo Mister.

d'Os mistérios de uma puta profana

"Nossa vida, nossa religião,
tudo tão pouco para um Deus qualquer,
tudo tão pequeno para quem
não nutre, não possui um credo, uma fé..."

Cântico de uma Freira Profana - L.K.Briseude



Parte 1 - Intróito

Meu nome é Gesebel, filha de Isabel e de Manuel. Desde os 15 anos gosto de ser rapariga pelas terras do Ceará. No começo ninguém queria me comer, eu era muito magrinha, mas agora meu corpo pegou jeito, sabe. Passa a noite toda ocupada com homens vazios e sem respeito. Muitos pensam que putas são seres burros, mas eu não sou burra. Estudei, sei falar francês, alemão, inglês, italiano e grego, o que de certo modo me ajuda no trabalho. Minha especialidade é Ket. Dizem que sou o melhor ket do mercado, mas não sei. Sou uma moça tímida.

Parte 2 - Mesídia

O fato de eu ser quenga faz com que eu veja as coisas de um jeito menos sério, sabe. Eu sei que todos os homens gostam de trair, por isso que sou sapa. Desde o ano passado, estou casada com a Maria Rolão, uma amiga minha desde muito tempo, sabe. Ela é linda e safada, do jeito que me apetece! Minha mãe e meu pai me expulsaram de casa por eu ter engravidado aos 14 anos. Fiz um aborto ali numa clínica perto de casa. Já fui mais católica, mas hoje não sei nem o que eu sou. Não gosto de um Deus que quer me mandar para o inferno, sabe. Tenho problemas com isso.

Parte 3 - Finídia

Tem dias que eu olho para o céu, sabe, esperando algo de bom, mas nada me vem. Desde cedo meu carma é sofrer, sabe. Mas sei lá...a vida me ensinou muitas coisas e isso eu sei valorizar, sei que as chances que eu tive me tornaram o que sou e, se sou assim, é por que tinha de ser assim. Deus é um cara sacana, sabe. Tem pessoas que ele dá tudo e para outras num dá nada, não. Ai que isso me dá raiva! Minha amiga de escola, a Maria Tabacuda, foi para a Espanha com um gringo podre de rico e eu fiquei aqui. O máximo que consigo são uns gringos fedidos que me ensinam algumas coisas em troca de uma trepada qualquer. Cobro bem para um puta, mas sou boa nisso de ket e de dar as coisas! Ai ai ai...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O conto d'Uma Chuva e pouco mais



Não me lembro quando eu a vi pela primeira vez, mas da janela do meu quarto sempre eu a via, sempre no mesmo lugar, sempre de preto, de um preto fúnebre e mortal. Ela ficava ali por um bom tempo, mas eu sempre a via ali.
Minha mãe dizia que era mentira minha, que não havia ninguém do outro lado da janela, ali, perto do poste. Mas eu a via! Eu a via, e lá havia alguém...Uma mulher. Um certo dia eu notei que era uma mulher, uma moça bem jovem pelo jeito. Eu tinha meus 15 anos. Era um rapaz besta e idiota de um todo. Minha mãe me chamava de reta, de retardado. Eu achava engraçado, mas também me sentia meio pra baixo. Não deve ser certo uma mãe ofender o filho, né. Pelo menos não vejo isso com meus colegas de classe. Ai aquela mulher! Eu só queria saber quem é ela. De onde ela deve vir? Hum...pela roupa, deve ser de fora do país.
Ela parou de me aparecer faz um tempo agora. Nunca mais eu a vi pelo poste da calçada. Passou o tempo, mas nunca mais eu a vi...Num dia, depois de dez anos, eu volto a minha casa já com meus 25 por aí. Minha mãe não mudou nada, está chata e encrenqueira do mesmo jeito de sempre. Dá é nojo! Subo a meu antigo quarto e vou até a janela. Está chovendo. Fazia tempo que não chovia por aqui, sabe, mas...o que é aquilo? Meu Deus, é ela? Valhei-me, Nosso Senhor! E ela está de vermelho agora! Eita pau!

Canção de ninar


Castelo de ninar,
planta e aquário lunar.
Dorme, linda criança, meu amor.
Dorme logo, dorme por favor.

Neste Castelinho
não há tristeza nem espinho,
não há nada de ruim, eu digo.
Lá todos tem um amigo.

Neste trono que eu sento,
a vida não tem um tempo
para começar nem para acabar,
que tudo aqui gira um pouco mais devagar.

Neste Castelinho
não há tristeza nem espinho,
não há nada de ruim, eu digo.
Lá todos tem um amigo.

Castelo de ninar,
planta e aquário lunar.
Dorme, linda criança, meu amor.
Dorme logo, dorme por favor.

O mito de Affencar


Era uma vez em um reino muito além do horizonte e do oceano azulado uma pequena princesa, a qual deram o nome de Affencar, filha de Comantro e de Coffenregis, Rainha do Vento Cortante. O pai da princesa era um humano comum, sem muito o que de especial, enquanto a mãe de Affencar era uma rainha muito querida por seu pai, o finado Rei Reghel'. Os reis não gostaram muito do casório de uma nobre com um plebeu, mas Coffenregis amava muito Comantro, lutando contra tudo e contra todos para realizar seu intento: casar com seu verdadeiro amor. E assim se fez a 14 de Betmero de 1500 post Borfhel'. Foi uma grande festa. Houve dois meses de comida para todos os convidados e um ano de alimento para os súditos do Castelo de Fal-Hel'. Contudo, o mundo não é só flores. A pequena Affencar possui uma maldição em seu ser, ela nasceu no dia dos Malditos, onde a noite dura sete dias e os demônios do Reino de Isens sobem ao mundo vivo para caçarem humanos para sua fome feroz. Rezava uma antiga lenda que quem nascesse neste dia seria portador da maldição de Isens, na qual a voz do amaldiçoado ecoaria como um estrondo para todos que o ouvissem, causando dor e, em casos mais graves, morte. A tristeza tomou conta do reino. O que fazer? Coffenregis pediu ajuda ao grande oráculo de Fehonor, o qual disse o seguinte:
-Em tempo de Isens não há o que se fazer! Se a voz dela mata, cortem lhe a língua!
E assim fizeram com Affencar. A menina foi levada para o Templo de EmneTolda, onde o sacerdote cortou-lhe a língua com a espada de Deus. A rainha Coffenregis ficou doente depois disso, talvez por ter se culpado pelo sofrimento que sua pequena filha teve de passar. Coffenregis se matou, jogou-se do topo da torre norte do Palácio, onde ficava os aposentos de sua pequena Affencar. A doce menina cresceu sem nunca ter visto a mãe, senão por retratos antigos e pomposos, nos quais Coffenregis parecia mais uma estátua que uma pessoa. A menina torna-se mulher, e única coisa que ela fazia era tocar harpa e flauta, sendo esta última a de sua predileção, talvez pelo som avícola que era produzido. Certa vez, estava a princesa num bosque ali perto do Palácio quando vê um pastor tangendo ovelhas com uma flauta diferente, uma flauta linda, muito bonita e com um som angelical. Affencar foi então onde estava o pastor. Eles tentaram se comunicar, mas a mudez da princesa dificultou bem o entendimento. O pastor então percebeu que o que a moça queria era sua flauta, o que o fez entregar-lhe seu instrumento. Mal sabia Affencar que aquele pastor era o terrível Misantro de Isens, uns dos doze demônios que têm livre acesso ao mundo superior. Aquela era a flauta de Eslamnórya, a Cidade da Destruição. A flauta tinha o mesmo dom de Affencar: o de destruir o que estivesse a seu alcance apenas com a vibração de sua voz. Affencar incautamente aceitou o presente maléfico e foi para o palácio. Ela não tocou seu instrumento ainda, resolveu fazer uma surpresa para os súditos e para os nobres. Pediu para seu tutor realizar uma festa, na qual ela iria tocar uma música com a nova flauta. E assim se fez. Chegou o dia da grande festa. Todos estavam lá. Affencar entra na sala, todos se levantam solenemente. Ela apanha sua flauta e começa a tocar. De repente, um estrondo se ouve, gritos exalam pela sala. Gemidos de dor e suspiros ritmados por golfadas de sangue. Num minuto todos os que estavam na sala morreram, menos Affencar, que ficou sozinha no seu Palácio, sem ninguém para lhe ouvir tocar.

Novela Psicológica


Capítulo 5 - Do final de uma Estória sem nem Começo nem Meio

Muitos pensam que Cristo é um homem, mas eu penso diferente: para mim Cristo é um pato.
Minha mãe não me trouxe o café hoje. Por que? Eu não sei. Eu não sei...
...
A velha senhora me aparece e me diz em voz solene:
-Meu filho, tende piedade de ti mesmo e de teus sonhos criados, de tua mentira ornada e de teus passados presentes que amargam em tudo um traço de um futuro, de um viente diferente de tudo que tu queres para ti, para tua vida em si.
Aquilo me fez chorar.
Eu entendi que o começo de minha vida não reside na desesperança de uma morte que chegará, em fingir que minha vida será eterna, que haverá um além desta terra que vivo, desta terra que morro a cada dia sob o efeito dos tempos, das tempestas de sentimentos e do sol que me queima as retinas em pó. A vida é um jogo de azar, onde o primeiro passo não é o mais importante, nem o meio nem o final; o que realmente importa é como se faz, que no final todos iremos para o mesmo nada, para o mesmo limbo da existência...
Deus e minha mãe são pessoas boas!
Eu é que sou ruim.
...
Toda noite eu tomo minha sertralina, mas não percebo meu eu voltando. O que me ocorre?
...
José?
José, meu filho!
Está na hora de acordar! Já, já começa sua aula. Vamos! Se levante e vá tomar seu café que eu vou ao banco receber o dinheiro de seu avô, viu.
beijo, meu filho.
...
O copo?
Que copo?
Está vazio de novo?
Novo, novamente?
Não entendo mais nada deste negócio!
...
A porta não abre!
A porta não...
Meu Deus!
Meus olhos não abrem!
Meus olhos...
...
Sal? Você gosta de sal no seu ovo?
sim, eu gosto.
Ah então eu vou colocar aqui, pera!
tá, eu pero.
...
Vou dormir que é o melhor que eu faço.
...
FIM